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História Judaica: Uma Ídishe Dona de Casa!

Enviado por on 01/08/2011 – 16:00nenhum comentário

Glickl Pinkerle Goldshmidt não foi, como Solomon Schechter chamou, uma “simples dona de casa”. Nascida em Hamburgo em 1645, pertencenta a uma família muito respeitada, ela provavelmente freqüentou o cheder de meninas (ensino fundamental judaico). Ela era bem versada em midrash, histórias éticas, tehinot (orações em ídiche), Taytch (o Pentateuco ídiche), histórias bíblicas e literatura popular. Seu ídiche era excelente, tanto oral como escrito, ela provavelmente sabia ler hebraico, embora o nível de sua compreensão seja incerto. Há debates até hoje se ela sabia ou não falar alemão.

Glickl e sua família presenciaram alguns dos eventos históricos mais importantes que afetaram os judeus europeus deste período. Por exemplo, os pogroms Chmielnitzki na Polônia criaram um problema de refugiados na Alemanha; a influência da esperança messiânica Shabtai Zvi foi sentida nas comunidades de Asquenaz, bem como no Império Otomano. O fim da Guerra dos Trinta Anos, em 1645, deixou a Alemanha em um estado terrível, os judeus sofriam de suas repercussões econômicas e políticas, bem como de ataques aleatórios, perseguição, pragas e doenças. Na segunda metade do século 17, alguns dos judeus da Alemanha receberam uma permissão tempóraria para morar, enquanto outros foram duramente expulsos.

A família Glickl fugiu de Hamburgo para a cidade dinamarquesa de Altona, e se eventualmente não conseguissem morar em paz, voltariam a Hamburgo.

No entanto, Glickl teve “sorte”, como seu nome (Glick e alemão significa sorte!) e se casou com 11 anos. Ganhou Haim Goldshmidt como seu esposo. Foii verdadeiramente uma aliança feita no céu. Estes dois criaram uma parceria amorosa e adotaram uma dúzia de crianças (sobreviventes). Haim trabalhava com ouro usado, pedras preciosas e importações. Ele estava viajando constantemente, participando de feiras realizadas em cidades longes e em outras mais perto. Glickl preparava contratos de compra e venda em casa, arranjados para os agentes (geralmente membros da família mais confiável) e preocupava-se  incessantemente com a segurança e a saúde de seu amado marido.

Estes receios não eram infundados, pois ele não estava sempre bem de saúde. Aos 44 anos, Glickl ficou viúva, com dívidas a pagar e oito casamentos para arranjar. Depois de vender suas próprias jóias para cobrir as dívidas e manter o seu “bom nome”, ela continuou a executar os negócios da família, compra e venda de pérolas, viajando para feiras, gerenciando uma fábrica de meias e arranjando casamentos impressionantes para seus filhos. No entanto, enfrentar a vida sozinha levou a noites sem dormir, ao invés de sofrer, esta empresária decidiu fazer melhor uso do seu tempo e, ao mesmo tempo, de legar aos seus descendentes uma consciência de suas origens.

Assim, de 1690-1699, ela compôs a primeira parte de suas memórias mais detalhadas. Glickl tinha uma memória incrível, um bom senso de humor e uma forte crença em Deus. Ela não reclamou, e descreveu sua vida sem parecer notar que ela poderia ser incomum. Ela acreditava que, apesar da incapacidade de garantir qualquer tipo de estabilidade, é necessário dedicar-se a trabalhar duro para a família. Suas memórias são entrelaçadas com histórias éticas e descrições detalhadas da vida judaica.

O medo de se tornar um fardo, com a idade, a levou a aceitar um segundo casamento.

Isso implicou uma mudançã para a cidade de Metz, onde uma filha teria sugerido um pretendente. Enquanto o seu segundo marido era bem-intencionado, logo depois deles se casarem ele sofreu um desastre financeiro, perdeu o dote de sua esposa e fundos adicionais.

Este casamento teve muito menos sucesso do que o primeiro. Depois que ele morreu, a viúva Glickl novamente pegou sua pena (em 1719) e voltou a compor o que seria os dois últimos livros (de sete) de suas memórias.

Seus descendentes tinham os meios para copiar e preservar essa incrível peça de literatura, que tem servido como fonte para a história e a cultura de judeus da Europa Central, bem como para a pesquisa do idiche e estudos sobre as mulheres. Chava Turniansky publicou recentemente uma tradução hebraica que ultrapassa de longe qualquer outra (Memoirs Glickl 1691-1719, Jerusalém 2006). A leitura destas memórias é um uplifting, bem como uma experiência educacional, pois, sem duvida, ela não era apenas uma “simples dona de casa”.

A escritora é professor de história judaica e reitora do Instituto Schechter, bem como editora acadêmica da revista Nashim. E tem publicado livros e artigos sobre sefaradim e sobre as mulheres judias.

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